
Todo grupo de maconheiros é obrigado a se esconder de tempo em tempo, pra fumar sossegado e não ter nenhum cop pra cortar o barato. Por desgraça do destino, alguns passam pela situação constrangedora do que se é conhecido por "cair", ou uma variável não tão pesada, a "geral". Hoje não foi o nosso dia de glória. Como de costume, estávamos em um dos nossos points da cidade, fumando o nosso numa boa, tudo numa nice, baseadinho passando, galera conversando, rindo e fazendo o que de mais maconheiros fazem. Estávamos realmente entretidos, ainda mais porque a segunda baga já estava sendo queimada e a cabeça de todos se esvaindo em pensamentos verdes. Só tive tempo de olhar de relance e apontar para a Giovanna, para uma tentativa frutrada de avisar a mesma de dispensar aquele beck, quando já no começo das minhas palavras, fui interceptado por aquela voz grosseira e suja, a frase entrando no ouvido de cada um causando variações de espanto:
"TODO MUNDO COM A MÃO NA CABEÇA"
Por eventuais problemas do passado, fiquei mais tranqüilo por conhecer algumas pessoas com uma certa influência, livrando o meu lado e talvez o de todo mundo. Se a solução fosse dita em um tom para todos escutarem, os cops com toda certeza iriam me ridicularizar e quem sabe eu tomaria umas bordoadas. O Link me olhou desesperado, ele nunca tinha levado uma dura daquelas. Fomos revistados um a um, 5 minutos antes de eles chegarem, eu tinha colocado meu dechavador na cueca e na hora que o policial me revistou, suei frio com medo de que achassem o mesmo. Abriram minha caixonha e nada acharam, só um cartão e uma caixa de fóforo, fecharam e deixaram de boa. Sem flagrantes presentes em nosso porte, eles precisavam arranjar uma maneira de nos foder e usaram o argumento do menor de idade, novamente outra frase que causaria uma certa desavença entre os pensamentos daquele grupo:
"É o seguinte pessoal, todos vocês estão presos."
Naquela altura do campeonato, todo mundo despirocou, alguns tomando ações um pouco precipitadas, como foi o caso da Marina, que ofereceu grana para os cops pra nos deixar vazar, uma idéia um tanto quanto transtornada, eu diria. Eu tentava me acalmar por dentro "Tudo bem, meu contato vai me tirar de lá hoje mesmo e sem problemas", mas minhas pernas se recusavam a acreditar e eu tremia. O Link, que já estava nervoso, explodiu de vez e perguntava a mim o que podíamos fazer e eu não podia dizer porque a situação me impedia. Eu olhava nos olhos da Giovanna e sentia-lhes tremer de desespero. O homem de capacete, que parecia aqueles modelos de cop a lá Texas Ranger, tirou uma folha de papel, uma caneta e começou a pegar os endereços, nomes, profissões e idades, espalhando mais euforia no grupo. Quando ele pegou o rádio e falou "Mande duas viaturas pra cá agora", começamos a reagir e aos poucos fomos definindo nossas posições, de quem iria fazer de tudo pra não ficar fichado ou até mesmo, preso. Não demorou muito pra que soltassem as meninas e o menor de idade. Sobraram só os mais velhos e demos continuidade a nossa resistência, implorando aos caras que nos deixassem em paz porque somos pessoas de bem. Um amigo meu, que já tinha um antecedente criminal meio recheado, decidiu lutar com todas as forças e até simulou um choro, conseguindo brutalmente, quebrar o gelado coração daquele temível cop. De certo pensou "Caralho, se eu for pra DP, estou mais do que fudido", o medo era tanto que nem o RG ele passou, mas eu entendo o seu lado, se eu tivesse em sua posição, faria o mesmo. Aos poucos todo mundo foi lutando e no final das contas, os caras acabaram liberando a galera toda, sem fichar, nem bater, nadica. Depois de digerir toda a bad trip, estávamos nós no andar de fumantes do shopping rindo de tudo, contando cada um o sentimento que predominava na hora. É isso que salva nossas bad trips né? Aquele grupo que te faz rir logo no instante em que é possível, aquela galera, aquela família.